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05 janeiro 2013

Últimas palavras à nação

Salvador Allende Gossens, 11 de setembro de 1973
(Clique aqui e baixe o áudio do discurso.)


“Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.”

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores:

Não vou renunciar!

Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças.

Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista.

Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta.

Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos.

A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino.

Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se.

Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile!

Viva o povo!

Viva os trabalhadores!

Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.


Notas:
Discurso do Presidente Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, dia do golpe de Estado que derrubou o governo da Unidade Popular e implantou a sanguinária ditadura militar comandada pelo general Pinochet. O Palácio presidencial foi bombardeado pelos militares e Allende morreu de armas na mão resistindo ao golpe.

Fonte: MIA

01 janeiro 2013

Os 54 anos da Revolução Cubana: o que ela representa?


Entrada dos revolucionários cubanos na cidade de Havana, em 1 de janeiro de 1959. 

A revolução cubana não foi apenas a segunda independência de Cuba. Ela foi uma luz para a América Latina. Uma pequena ilha havia se levantado contra um império, contra a tirania do imperialismo. A luta contra esse império segue até hoje. Durante os últimos 54 anos, os cubanos vem enfrentando uma série de ataques. Mas eles resistem. E resistem porque, caso fracassem, sabem que tem duas coisas muito preciosas a perder: a liberdade e a independência.

E Fidel, o que dizer dele? Foi sem dúvidas o maior chefe de governo da história do continente. Não houve líder mais capaz, honesto, corajoso e leal ao povo. Enfrentou a própria família para garantir os interesses populares. Sua família, formada por proprietários de terras, não escapou da reforma agrária, tendo suas propriedades coletivizadas.

O dia 1 de janeiro ficará marcado para sempre como o dia em que um grupo de jovens rebeldes triunfou sobre a injustiça, a opressão e a exploração. Os guerrilheiros de Sierra Maestra são e sempre serão um exemplo para aqueles que acreditam na construção de um mundo mais justo, onde homens e mulheres não tenham mais que se vender para sobreviver, um mundo onde o trabalho deixe de ser um simples instrumento de um pequeno número de homens imoralmente ricos, que o exploram diariamente para seus fins, para se tonar numa fonte de liberdade humana.

A revolução cubana, pouco a pouco, transformou Cuba em uma democracia popular. A suposta ditadura castrista tão falada pela mídia capitalista e até mesmo por parte da esquerda é, na verdade, o regime mais democrático do mundo.

Por que Cuba seria uma ditadura? Por que há um sistema de partido único? Definir a democracia como pluripartidarismo é uma deformação do significado original da palavra, que significa "poder do povo". Quanto maior a participação do povo nas decisões políticas, mais democracia se tem. E ninguém pode afirmar honestamente que em Cuba o povo não tem participação efetiva na política. Quem conhece o modelo cubano sabe que em nenhum lugar do mundo os trabalhadores tem tanto poder.

O que é mais democrático do que um sistema onde até os candidatos a cargos políticos são escolhidos diretamente pelos eleitores, enquanto em países como o Brasil e os EUA são os partidos que decidem quem serão os candidatos? Além disso, em Cuba, os representantes podem ter seus mandatos revogados a qualquer momento.

É sempre importante repetir que o Partido Comunista de Cuba não tem caráter eleitoral. Ele não indica candidatos, não faz campanhas políticas. O PC cubano tomou desde o primeiro momento medidas para combater a burocratização do partido. Que outro partido do mundo, por exemplo, só aceita novos membros caso eles sejam aprovados por assembleias de trabalhadores?

Não estou dizendo que tudo na política cubana é perfeito. Mas chamar Cuba de ditadura é uma completa falta de conhecimento sobre o que é poder popular. No máximo, poderíamos exigir ainda mais democracia no país. A democracia sempre pode ser ampliada, isto é, a participação dos cidadãos nas decisões políticas sempre podem ser elevadas a um novo grau.

Cuba, hoje, passa por uma série de reformas econômicas, que visam modernizar a economia do país. Podemos dizer que o governo de Raul Castro está democratizando a economia. A intenção é ampliar o controle da sociedade sobre as atividades econômicas.

O Partido Comunista de Cuba permanece fiel ao socialismo, mas seus dirigentes e líderes tomaram consciência de que o socialismo cubano precisar ser renovado. É claro que há sempre a possibilidade de um golpe de burocratas pró-capitalismo destruir o sistema socialista do país, como ocorreu no leste europeu, mas por enquanto não há nenhum sinal de que isso possa ocorrer em Cuba. Mas sabe-se que, enquanto existirem países capitalistas no mundo, o socialismo não terá triunfado. O socialismo cubano, então, só triunfará realmente, caso encontre apoio em uma revolução internacional. A questão é, Cuba socialista, surgida do socialismo do século XX, viverá para ver o novo socialismo? Só o tempo nos dará a resposta.

A revolução deu ao povo cubano, entre outras coisas, democracia, educação, saúde, moradia, alimentação digna, segurança e trabalho para todos. Essas conquistas precisam ser preservadas, mas isso significa uma luta contra as forças que insistem em tentar destruir a independência e a liberdade dos cubanos. E não é apenas uma luta contra forças inimigas imperiais, é também uma batalha contra qualquer ameaça burocrática que tente transformar o sistema político de Cuba em um oligarquia.

Marx, Engels e Lênin alertaram para a ameaça que representa a burocracia. Foi pensando nisso que Engels disse na introdução ao texto de Marx "A Guerra Civil na França" que, em uma sociedade socialista, seria preciso cortar os piores aspectos do Estado desde o primeiro momento. E, na minha visão, isso significa uma luta permanente para fortalecer os órgãos de poder popular, ligados à sociedade. Seguindo o exemplo dos três gigantes fundadores do socialismo científico, os trabalhadores cubanos devem sempre estar atentos a qualquer desvio burocrático.

Que a revolução cubana não seja apenas mais uma data famosa da história, que ela sirva de exemplo e inspiração para todos os povos trabalhadores do mundo, os únicos capazes de jogar no lixo da história a exploração e derrotar a ditadura do capital. Viva Cuba livre!

25 abril 2010

UNE: 30 anos da reconstrução (3/3)



Documentário feito pela TV da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul por ocasião da homenagem aos 30 anos de reconstrução da União Nacional dos Estudantes.

24 abril 2010

UNE: 30 anos da reconstrução (2/3)



Documentário feito pela TV da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul por ocasião da homenagem aos 30 anos de reconstrução da União Nacional dos Estudantes.

23 abril 2010

UNE: 30 anos da reconstrução (1/3)



Documentário feito pela TV da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul por ocasião da homenagem aos 30 anos de reconstrução da União Nacional dos Estudantes.

22 abril 2010

Descobrimento[?] do Brasil

Muito polêmico é o histórico do descobrimento/invasão do Brasil pelos portugueses/franceses ou espanhóis. Essa história é, no mínimo, intrigante, pois vários fatos são omitidos na maioria das versões. Não que exista uma versão verdadeira e uma falsa. É como se cada um contasse da sua maneira, apresentando apenas alguns elementos.

Os primeiros dados que vamos discutir nos levam a entender que os quinhentos anos de descobrimento não são nada diante do tempo em que, cientificamente comprovado, já viviam pessoas em nosso país.

Para entendermos isso, começamos contanto que a natureza não é estática, ela vai sofrendo transformações. Segundo Chico Alencar, nem sempre existiram os continentes como a gente conhece hoje. Quando olhamos para o mapa do Brasil, percebemos que ele se encaixa no da África como se fosse um quebra cabeça. Chico Alencar explica que essas peças são placas tectônicas que estão sempre em movimento. Elas foram se movimentando lentamente e há uns 80 ou 100 milhões de anos, aproximadamente, a África e a América do Sul se separaram definitivamente. Quando tudo estava junto, tudo fazia parte de um supercontinente chamado Pangea.

Chico Alencar conta que no Brasil, os arqueólogos suspeitam que há 50 mil anos já existiam grupos humanos que moravam aqui, pois encontraram muitos objetos, vestígios de fogueiras e fósseis. Na região sul há indícios que comprovam que há 15 mil anos já viviam pessoas aqui. Mesmo com essas informações, do jeito que contam, parece que a nossa história começou em 1500.

Alguns afirmam que no dia 8 de março de 1500 partiram de Portugal 13 caravelas com mais ou menos 1500 homens. Dizem que estavam a caminho das Índias e que fortes tempestades os afastaram do seu itinerário e eles acabaram indo para outras terras e assim, por acidente, no dia 22 de abril de 1500 aqui chegaram.

Há controvérsias sobre esse registro da história. Vasco da Gama, por exemplo, já havia feito o caminho às Índias em 1498 e havia nessa ocasião, inclusive, feito contatos comerciais. Portanto, por que eles se perderiam? Na época também já conheciam cálculos de longitude e não navegam sem controle. Outra questão que devemos considerar é que, afirmam alguns historiadores, que Cristóvão Colombo veio à América em 1492 e em 1494 fizeram a partir do que viu aqui, o Tratado de Tordesilhas. Outra questão é que na carta de Pero Vaz de Caminha havia a seguinte afirmação “aquilo que se esperava achar foi achado”. Outro fato que nega a versão oficial é que Duarte Pacheco Pereira (gênio da astronomia) a pedido do rei, esteve em nossas terras em 1498 e que isso teria sido mantido em sigilo. Contou ele que a terra aqui era grandemente povoada. Isso é contado no livro Esmeraldo situ orbis (dos sítios da terra). Esses são indicativos de que aqui não chegaram por acidente, mas sabiam mais ou menos o que encontrariam. Portanto, não houve descobrimento, mas invasão. E, no dia 2 de maio uma das embarcações voltou à Portugal para contar sobre a chegada ao Brasil. Eles tinham um grande interesse nas nossas terras, pois imaginavam que encontrariam aqui muitas riquezas naturais, como realmente acabou acontecendo.

Outras versões contam que em 1488 o francês Jean Cousin estivera no Brasil (rio Amazonas) e que em 1499 o espanhol Vicente Yáñez Pinzón e Diego Lepe estiveram em Santo Agostinho, em Pernambuco.

Quando os portugueses aqui chegaram encontraram em torno de 2 milhões de nativos. Hoje são em torno de 460 mil apenas.

Diante de alguns dados, poderíamos entender que a história do Brasil não começa em 1500 e poderia ser assim dividida: Pré-Descobrimento (até 1500), Colônia (1500 a 1822), Império (1822 a 1889) e República (de 1889 aos dias atuais).

13 abril 2010

Hipocrisia da Hilarizinha

Hilary Clinton sobre Cuba:
"Eu penso, pessoalmente, que os Castro não querem o fim do embargo e não querem ver a normalização (das relações) com os Estados Unidos porque eles perderiam todas as desculpas por tudo o que não aconteceu em Cuba nos últimos 50 anos.

Muitos, no mundo, veem agora aquilo que nós já tínhamos visto há muito tempo: um regime muito intransigente, entrincheirado, que sufocou as possibilidades dos cubanos".
Na foto abaixo, você vê o que "direitos humanos" significa para a Hilarizinha. Seria cômico se não fosse trágico.


Obs.: Foto de prisioneiros em Guantánamo, controlada pelos EUA, em solo cubano.

30 março 2010

A guerrilheira que morreu pela liberdade

João Amazonas, maio de 1972

Maria Lúcia Petit, guerrilheira do Araguaia, morreu nas primeiras semanas de luta, a 16 de maio de 1972. Este artigo, escrito na ocasião por João Amazonas, assinado como Alfeu Duarte, foi difundido pelo Brasil de forma limitada na época. O corpo de Maria Lúcia Petit, foi o primeiro a ser exumado e reconhecido. Maria Lúcia foi enterrada em Bauru (SP), no dia 15 de junho de 1996.


Eu queria colocar uma rosa, uma simples rosa vermelha entre as mãos geladas pela morte da guerrilheira do Araguaia, Maria Lúcia Petit.

Seria uma homenagem simbólica, dedicada àquela que deu a vida lutando pela liberdade e pelo bem do povo. Com esse gesto eu exprimiria toda a ternura de seus companheiros e a afirmação solene de que seu sangue não foi derramado inutilmente. Mas, foi impossível de o fazer. Ninguém podia aproximar-se de seu cadáver, vigiado pelas forças militares, nem conduzir seu corpo a última morada. Os bandidos do Exército têm medo dos combatentes da liberdade, mesmo após sua morte. De longe, seus amigos choraram a perda desta jovem dedicada à causa dos oprimidos e juraram prosseguir a luta contra a ditadura sanguinária até a vitória final.

Tinha pouco mais de 20 anos, esta heróica guerrilheira. Ela amava a vida. Trabalhou e estudou na capital de São Paulo, onde desfrutava de relativo conforto. Podia como muitas outras jovens, seguir os velhos caminhos do casamento e do aburguesamento. Apesar disso, preferiu dar um sentido a sua existência. Amava a liberdade e odiava o regime militar que persegue violentamente a juventude e fecha o caminho para a realização de seus melhores e mais caros sonhos.

Não hesitou. Há quase 2 anos partiu de São Paulo e foi viver no interior do Estado de Goiás. Fez numerosos amigos no lugar pobre onde morou. Mais tarde, mudou-se me direção ao Sul do Estado do Pará. Trabalhou no campo. Adquiriu melhor conhecimento da terrível situação de abandono e de miséria na qual vegetam os trabalhadores rurais e a população camponesa.

Em abril, as Forças Armadas, no curso de uma de suas provocações costumeiras, atacaram os habitantes da margem esquerda do Araguaia, onde Maria Lúcia morava. Cometeram toda espécie de violência.

Mas não saíram impunes deste covarde ataque. Muitos dos habitantes pegaram em armas, se retiraram para a mata, e decidiram resistir.

Maria tomou lugar entre os resistentes, transformando-se em guerrilheira, combatendo pela liberdade e pelos direitos do povo. Durante semanas viveu na floresta, dormindo sobre estrelas, procurando os meios de sobreviver e estudando a arte militar. Apoiada pelas massas, combateu as forças da reação. Cumpriu corajosamente as tarefas mais arriscadas, sem se lastimar das dificuldades, sem deixar arrefecer seu entusiasmo juvenil. Pensava sempre sobre o que havia escrito um poeta:

“A luta abate somente os fracos. Ela não pode exaltar senão os bravos e os fortes”.

Tendo pouquíssima experiência, perdeu a vida, ao mesmo tempo que outro companheiro, em uma emboscada preparada pelo inimigo, muito próximo à casa de pessoas que conhecia e que procurava para ter o seu apoio. Não tinha medo da morte. Tombou lutando, a arma na mão. Seu fim glorioso impressionou a população local que ela estimava e admirava muito.

Um general fascista, chefe de polícia do Estado do Mato Grosso, festejou a notícia declarando que estava lá o tratamento que o Exército reservava àqueles que ousavam lutar no Araguaia. O bandido não perde por esperar. As Forças Armadas já estão pagando, e pagarão sempre mais, um alto preço pela vida de cada guerrilheiro. A morte dos que combatem pela liberdade se transforma num apelo, escrito com sangue, a todos os brasileiros inconformados com a tirania. Milhares de outros combatentes ocuparão, mais cedo ou mais tarde, o lugar dos que tombarem. E chegará o dia em que nesta terra mandará o povo e não um punhado de militares que odeiam a democracia e traem os interesses da nação.

Maria Lúcia Petit viverá sempre na lembrança dos verdadeiros democratas e patriotas, Muitas e muitas rosas, as rosas vermelhas da nossa saudade e do nosso reconhecimento, serão ainda ofertadas à memória de quem viveu, lutou e morreu pela felicidade do povo e pela liberdade da pátria.

Fonte: MIA

29 março 2010

Carta de despedida de Che Guevarra a Fidel (1965)

A Fidel Castro
Havana. “Ano da Agricultura”

Fidel:

Neste momento recordo muitas coisas: quando te conheci em casa da Maria Antónia, quando me propuseste acompanhar-te, toda a tensão dos preparativos.

Um dia passarram perguntando a quem se devia avisar em caso de morte, e a possibilidade real do fato chocou-nos a todos. Depois soubemos que era certo, que numa revolução se triunfa ou se morre, se é verdadeira, e muitos companheiros ficaram ao longo do caminho para a vitória.

Hoje todo temos um tom menos dramático porque estamos mais maduros, mas o fato repete-se. Sinto que cumpri a minha parte do dever que me ligava à revolução Cubana no seu território e despeço-me de ti, dos companheiros, do teu povo, que é já o meu.

Renuncio formalmente aos meus cargos na Direcão do Partido, ao meu posto de ministro, ao meu grau de comandante, à minha condição de cubano. Nada legal me liga a Cuba, só laços de outra classe que não se pode partir como as nomeções.

Ao rever a minha vida passada, creio ter trabalhado com suficiente honestidade e dedicação para consolidar o triunfo revolucionário. O meu único erro com alguma gravidade foi não ter confiado mais em ti desde os primeiros momentos da Sierra Maestra, e não ter compreendido com celeridade suficiente as tuas qualidades de dirigente e de revolucionário.

Vivi dias magníficos e senti ao teu lado o orgulho de pertencer ao nosso povo nos dias luminosos e tristes da Crise das Caraíbas. Poucas vezes brilhou mais alto um estadista que nesses dias; orgulho-me também de te ter seguido sem vacilar, identificado com a tua maneira de pensar e de ver e apreciar os perigos e os princípios.

Outras serras do mundo reclamam o concurso dos meus modestos esforços. Eu posso fazer o que te está negado pela tua responsabilidade à frente de Cuba e chegou a hora de separar-nos.

Saiba-se que o faço com uma mescla de alegria e dor: aqui deixo o mais puro das minhas esperanças de construtor e o mais querido entre os meus seres queridos, e deixo um povo que me admitiu como um filho; isso lacera uma parte do meu espírito; aos novos campos de batalha levarei a fé que me inculca, o espírito revolucinário do meu povo, a sensação de cumprir com o mais sagrado dos deveres: lutar contra o imperialismo onde quer que se encontre; isto reconforta e cura amplamente qualquer aflição.

Repito mais umha vez que liberto Cuba de qualquer responsabilidade, salvo a que emana do seu exemplo; que se a hora definitiva me chegar sob outros céus, o meu último pensamento será para este povo e especialmente para ti; que te digo obrigado pelos teus ensinamentos e pelo teu exemplo, ao que tentarei ser fiel até as últimas conseqüências dos meus atos; que estive sempre identificado com a política externa da nossa Revolução, e continuo a estar; que onde quer que me detenha sentirei a responsabilidade de ser revolucionário cubano, e como tal atuarei; que não deixo aos meus filhos e à minha mulher nada material e não me apena: alegra-me que assim seja.

Que nada peço para eles, pois o Estado dar-lhes-á o suficiente para viver e educar-se.

Teria muitas coisas que dizer a ti e ao nosso povo, mas sinto que não são necessárias as palavras e não podem expressar o que eu desejaria; não vale a pena deitar mais borrões no papel.

Até a vitória sempre. Pátria ou morte!

Abraço-te com todo o fervor revolucionário,

Che

28 março 2010

Leia trechos da carta de despedida de Fidel Castro ao povo cubano

"Queridos compatriotas:

Prometi a vocês na sexta-feira passada, 15 de fevereiro, que na próxima reflexão abordaria um tema de interesse para muitos compatriotas. A mesma adquire desta vez a forma de mensagem.

Chegou o momento de propor e eleger um Conselho de Estado, seus presidente, vice-presidente e secretário.

Desempenhei o honroso cargo de presidente ao longo de muitos anos. Em 15 de fevereiro de 1976, aprovou-se a Constituição Socialista por voto livre, direto e secreto de mais de 95% dos cidadãos com direito de votar. A primeira Assembléia Nacional se constituiu em 2 de dezembro deste ano e elegeu o Conselho de Estado e sua Presidência. Antes, exerci o cargo de primeiro-ministro por quase 18 anos. Sempre dispus das prerrogativas necessárias para levar adiante a obra revolucionária com o apoio da imensa maioria do povo.

Conhecendo meu estado crítico de saúde, muitos no exterior pensavam que a renúncia temporária, em 31 de julho de 2006, do cargo de presidente do Conselho de Estado, que deixei nas mãos do primeiro vice-presidente, Raúl Castro Ruz, era definitiva. O próprio Raúl, que, por méritos pessoais, também ocupa o cargo de ministro das Forças Armadas Revolucionárias, e os demais companheiros da direção do Partido e do Estado, foram relutantes a me considerarem afastado do cargo apesar de meu estado precário de saúde.

Era incômoda a minha posição frente a um adversário que fez todo o imaginável para se desfazer de mim, e em nada me agrada satisfazê-lo.

Mais adiante, pude alcançar de novo o total domínio de minha mente, a possibilidade de ler e refletir muito, obrigado pelo repouso. Acompanhavam-me forças físicas suficientes para escrever por longas horas, as quais também usava para a reabilitação e recuperação. Um sentido comum elementar me indicava que essa atividade estava ao meu alcance. Por outro lado, preocupei-me sempre, ao falar de minha saúde, evitar ilusões que, em caso de um desenlace desfavorável, traria notícias traumáticas ao nosso povo em meio à batalha. Prepará-lo para minha ausência, psicológica e politicamente, era minha primeira obrigação depois de tantos anos de luta. Nunca deixei de assinalar que se tratava de uma recuperação "não isenta de riscos".

“Era incômoda a minha posição frente a um adversário que fez todo o imaginável para se desfazer de mim, e em nada me agrada satisfazê-lo”.

Meu desejo sempre foi cumprir o dever até o último alento. É o que pude oferecer.
Aos meus afetuosos compatriotas, que me me deram a imensa honra de, em dias recentes, eleger-me membro do Parlamento, no seio do qual se deve adotar acordos importantes para o destino da nossa Revolução, comunico-lhes que não aspirarei nem aceitarei - repito - não aspirarei nem aceitarei o cargo de presidente do Conselho de Estado e comandante-em-chefe.

Em breves cartas dirigidas a Randy Alonso, diretor do programa Mesa Redonda, da Televisión Nacional, que a meu pedido foram divulgadas, incluíam-se discretamente elementos desta mensagem que hoje escrevo, embora nem o destinatário destas missivas conhecesse o propósito. Confiava em Randy porque o conheci bem quando era estudante universitário de jornalismo, e me reunia quase todas as semanas com os representantes principais dos estudantes universitários, que já eram conhecidos como o interior do país, na biblioteca da ampla casa de Kohly, onde se hospedavam. Hoje, todo o país é uma imensa Universidade.

Parágrafos selecionados da carta enviada a Randy, em 17 de dezembro de 2007:

“Não aspirarei nem aceitarei o cargo de presidente do Conselho de Estado e comandante-em-chefe”.

"Minha mais profunda convicção é de que as respostas aos problemas atuais da sociedade cubana - que tem uma média educacional aproximada de 12 graus, quase um milhão de graduados de nível universitário e a possibilidade de estudo para seus cidadãos sem nenhuma discriminação - requerem mais variantes de resposta para cada problema concreto do que as soluções em um tabuleiro de xadrez. Não se pode ignorar nenhum detalhe, e não se trata de um caminho fácil, se é que a inteligência humana numa sociedade revolucionária há de prevalecer sobre seus instintos."

"Meu dever primordial é não me prender a cargos, nem muito menos obstruir o caminho das pessoas mais jovens, mas sim contribuir com experiências e idéias cujo modesto valor provém da época excepcional que me coube viver."

"Penso como Niemeyer, que se deve ser coerente até o fim."

Carta de 8 de janeiro de 2008:

“... Sou decididamente um partidário do voto unido (um princípio que preserva o mérito ignorado). Foi o que nos permitiu evitar as tendências a copiar o que se via nos países do antigo campo socialista, entre elas, o retrato de um candidato único, tão solitário quanto solidário a Cuba. Respeito muito aquela primeira tentativa de construir o socialismo, graças a qual pudemos continuar o caminho escolhido."

"Tinha muito presente que toda a glória do mundo cabia num grão de milho", reiterei naquela carta.

Trairia, portanto, minha consciência ocupar uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total, que não estou em condições físicas de oferecer. Explico sem dramaticidade.

“Meu dever primordial é não me prender a cargos, nem muito menos obstruir o caminho das pessoas mais jovens”.

Felizmente, nosso processo conta com quadros da velha guarda, juntamente com outros que eram muito jovens quanto se começou a primeira etapa da Revolução. Alguns, quase crianças, juntaram-se aos combatentes das montanhas e depois, com seu heroísmo e suas missões internacionais, encheram de glória o país. Contam com a autoridade e a experiência para garantir a substituição. Nosso processo também dispõe da geração intermediária que aprendeu junto conosco os elementos da complexa e quase inacessível arte de organizar e dirigir uma revolução.

O caminho sempre será difícil e vai requerer o esforço inteligente de todos. Desconfio das trilhas aparentemente fáceis da apologia, ou da autoflagelação como antítese. Preparar-se sempre para a pior das variáveis; ser tão prudente no êxito quanto firme nas adversidades é um princípio de que não se pode esquecer. O adversário a derrotar é sumamente forte, mas o havemos mantido distante por quase meio século.

Não me despeço de vocês. Desejo apenas combater como soldado das idéias. Seguirei escrevendo sob o título "Reflexões do companheiro Fidel". Será uma arma a mais do arsenal com a qual se poderá contar. Talvez se escute a minha voz. Serei cuidadoso.

Obrigado.


Fidel Castro Ruz,

18 de fevereiro de 2008,
17h30m"

27 março 2010

A verdade sobre o pacto Hitler-Stalin

Durante a passagem dos 70 anos do início da 2ª Guerra Mundial, a grande imprensa buscou reconstruir a história do seu ponto de vista. A principal vítima do revisionismo liberal-burguês – e não poderia ser diferente – foi a União Soviética.

Ela, juntamente com a Alemanha hitlerista, foi responsabilizada pela deflagração daquele conflito. A tragédia teria começado com a assinatura do pacto de não-agressão entre os dois países, ocorrido no fatídico dia 23 de agosto de 1939.

Há várias décadas Ivan Maiski, ex-embaixador soviético em Londres, alertava contra tal calúnia. Escreveu ele: “A falsificação aqui é dupla. Primeiro, são inteiramente adulterados os acontecimentos da Primavera e do Verão de 1939. Segundo, eles são tomados isoladamente, sem ligação com o passado, no qual têm sua origem, ficando, assim, incompreensíveis”. Qual seria, então, o passado - ou os antecedentes - do pacto de não-agressão entre a Alemanha e a URSS?

A ascensão de Hitler e a Frente Popular

Após a ascensão de Hitler ao poder, em janeiro de 1933, a Internacional Comunista começou a romper com as concepções esquerdistas e sectárias que predominavam no seu interior. Até aquele momento, por exemplo, ela considerava a social-democracia européia como o braço esquerdo do fascismo. Após a derrota na Alemanha, os comunistas passaram a defender a constituição de frentes únicas envolvendo a esquerda e setores democráticos contra o nazifascismo. Nascia, assim, a política das frentes populares.

A nova conjuntura internacional favorável ao fascismo acarretou também uma mudança na política externa soviética e levou-a a se aproximar das democracias burguesas, especialmente da Inglaterra e França. Uma aproximação nem sempre fácil devido ao anticomunismo arraigado nas classes dominantes daqueles países. Mas, o medo da ascensão alemã conduziu alguns elementos mais esclarecidos da burguesia à por de lado a ojeriza que sentiam pelo poder soviético.

Em 1934, a pedido de vários países, a URSS ingressou na Liga das Nações. A Alemanha e o Japão haviam abandonado para implementar suas políticas guerreiras. Como disse Maiski: “Isso colocava à disposição da URSS a tribuna internacional mais importante da época para fazer sua defesa da paz e combater o perigo de uma segunda guerra mundial”. Esse foi um período de breve degelo nas relações entre as democracias burguesas ocidentais e a URSS.

Anthony Eden, Ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, chegou a visitar Moscou, sendo o primeiro estadista ocidental a fazê-lo. O exemplo foi seguido pelo Ministro da França, Pierre Laval. Em maio de 1935 firmou-se um pacto de assistência mútua entre URSS e França. Depois se assinou outro com a Tchecoslováquia. Parecia que o país dos sovietes estava saindo do seu perigoso isolamento.

Contudo, as forças políticas conservadoras passaram a minar essa relação. Na Inglaterra o processo de esfriamento se aprofundou com a ascensão de Neville Chamberlain ao cargo de Primeiro-Ministro, ocorrido em maio de 1937. Desta data até 1939, quando eclodiu a guerra, predominou a chamada política de “apaziguamento” – ou seja, a política de concessões graduais às potências nazi-fascistas com a ilusão que essas concessões as acalmariam.

A Alemanha hitlerista vinha desrespeitando o Tratado de Versalhes e se rearmando. O primeiro ato aberto de provocação foi a ocupação militar da Renânia, que pelo tratado deveria se manter desmilitarizada. A URSS exigiu medidas drásticas dos membros da Liga das Nações. Mas, as potências ocidentais se contentaram com simples protestos diplomáticos. Nem mesmo uma ameaça de sanção foi aprovada contra o governo de Hitler. Isso soou quase como uma autorização para que continuasse a militarização e expansão do Estado alemão.

A Espanha, Áustria e Tchecoslováquia sacrificada

Em julho de 1936, o general Franco organizou um levante reacionário contra a jovem República Espanhola. A Itália e a Alemanha, dirigidas por fascistas, se apressaram em apoiar os golpistas. Enviaram-lhe homens e modernos armamentos. Começava assim uma sangrenta guerra civil. Era um sinal sombrio do que ainda estava por vir.

O governo legítimo espanhol reclamou a solidariedade das democracias ocidentais. A resposta inglesa, francesa e estadunidense foi aprovar a vergonhosa política de “não-intervenção”. Apenas a URSS saiu em socorro da República Espanhola. A esquerda mundial, encabeçada pelos comunistas, organizou as Brigadas Internacionais para combater as tropas fascistas na Espanha. Essa é uma das páginas mais belas do internacionalismo proletário no século 20.

Enquanto dezenas de milhares soldados italianos ainda combatiam ao lado de Franco para derrubar o governo constitucional, a Inglaterra assinou um tratado de amizade com Mussolini. Este acordo, além de cuspir sobre a farisaica política de não-intervenção, ainda acabava por reconhecer a ocupação na Etiópia realizada alguns anos antes sob protesto inócuo da Liga das Nações.

No mesmo ano, 1938, Hitler anexou a Áustria ao 3º Reich. Novamente as potências ocidentais responderam à agressão militar nazista com simples protestos protocolares. O governo soviético lançou uma declaração conclamando a cooperação internacional contra a ofensiva nazista: “A presente situação faz avivar em todos os Estados pacíficos, e em particular nas grandes potências, o problema de sua responsabilidade pelo destino dos povos da Europa, e não só da Europa. O governo soviético está consciente da parte da responsabilidade que lhe corresponde e posso declarar que está disposto, como antes, a participar de ações coletivas que tenha por finalidade deter o desenvolvimento da agressão e eliminar o crescente perigo de uma nova guerra mundial”. A resposta da França, da Inglaterra e dos EUA foi o silêncio. Um silêncio eloqüente.

Com as mãos livres, Hitler se tornou ainda mais ambicioso. Dois meses depois da anexação austríaca, tropas alemãs se concentraram nas fronteiras da Tchecoslováquia. O Füher agora exigia todos os territórios habitados por descendentes de alemães, os sudetos. Nessas regiões, grupos nazistas provocavam desordens e confrontos com a polícia visando criar pretexto para uma invasão.

Dessa vez as coisas pareciam se complicar para Hitler, afinal a França tinha um pacto de assistência mútua com a Tchecoslováquia e a Inglaterra com a França. A URSS – conforme estabelecia o pacto assinado anos antes – se comprometia a apoiar militarmente à Tchecoslováquia caso a França também fizesse o mesmo. Mas, o Ocidente não estava disposto a ir à guerra por um pedaço sem importância da Europa.

Um editorial do Times, porta-voz do conservadorismo inglês, daria o tom da capitulação ocidental diante de Hitler. Ele sugeria que para resolver a crise internacional e evitar a guerra os Tchecos deveriam abrir mão de alguns de seus territórios. Era preciso apaziguar os nazistas dando a eles o que queriam e os direcionando para o leste, rumo a URSS. Assim pensava a maioria dos liberais ocidentais.

Em 15 de setembro de 1938, Chamberlain encontrou-se com Hitler. Ouviu as reivindicações descabidas do ditador e as aceitou. Passou então a pressionar os tchecos, que, sem alternativas, foram obrigados a ceder. Alguns dias mais tarde, Hitler disse aos ingleses estupefatos que as concessões feitas eram agora insuficientes. A Alemanha queria mais territórios. O governo inglês novamente capitulou, mas, dessa vez, não encontrou a mesma receptividade dos tchecos. Hitler então ameaçou com a guerra imediata.

Poucos dias depois – entre 29 e 30 de setembro – os governos da Alemanha, Itália, Inglaterra e França se reuniram numa conferência em Munique e firmaram um tratado. Através dele a Tchecoslováquia deveria ceder a região dos sudetos, com todos os bens neles existentes. Ao saber dos resultados, exclamou Edouard Benes, presidente da Tchecoslováquia: “fomos abandonados”. A multidão chorava e protestava pelas ruas de Praga. Mas, segundo Chamberlain, a paz estava salva.

Seis meses depois do Acordo de Munique e da anexação dos sudetos, Hitler ocupou todo o território da Tchecoslováquia e o dilacerou. A Eslováquia foi declarada “independente” e outra região foi entregue a Hungria, governada pelo fascista Horthy. Novamente o que se viu foi a covardia dos governos britânico e inglês. Em ato contínuo Hitler exigiu a cidade polonesa de Dantzig, atual Gdansk.

A proposta soviética contra o eixo nazi-fascista

O governo soviético, diante da ameaça de ocupação da Polônia e Romênia, propôs uma conferência emergencial entre os representantes da Inglaterra, França, URSS, Romênia, Turquia e Polônia para debater e estabelecer mecanismos de resistência ao avanço nazista. Contudo, Chamberlain se apressou em dizer que se opunha a formação de blocos militares de países contra outros blocos militares. Portanto, nada de frente-única contra Alemanha e Itália. A Polônia, governada por reacionários, por sua vez, recusava-se a assinar qualquer acordo com a URSS. Nem mesmo uma declaração conjunta desses países conseguiu ser aprovada. Hitler pressentiu a fraqueza e vacilações de seus adversários.

Diante das ameaças reais que pairavam sobre a Grécia, Polônia e Romênia, a proposta inglesa e francesa foi oferecer garantias unilaterais a esses países. Essa foi a forma encontrada para fugir de qualquer compromisso militar explicito com a URSS. Ironicamente os três países a serem protegidos unilateralmente não tinham fronteiras com a Inglaterra e França. Dois deles, Polônia e Romênia, tinham divisas territoriais com a Rússia. Sendo assim, todo e qualquer apoio militar efetivo, necessariamente, deveria passar por um acordo com o próprio Stalin.

A URSS não aceitou essas garantias unilaterais e, em março de 1939, propôs um pacto de assistência mútua entre todos os países ameaçados pelas potências nazi-fascistas. Um ataque a qualquer um, inclusive à Rússia, seria considerado uma agressão a todos e respondido como tal. Essa era a única maneira de barrar o avanço da Alemanha, da Itália e do Japão. Estabelecia a proposta soviética:

“1. A França, a Inglaterra e a URSS prestar-se-ão, mutuamente, ajuda imediata e eficaz, se qualquer uma delas achar-se envolvida em operações militares com uma potência européia no seguinte casos:

a) agressão dessa potência a qualquer um dos signatários do pacto;
b) agressão dessa potência à Bélgica, Grécia, Turquia, Romênia, Polônia, Letônia, Estônia e Finlândia, países que os signatários se comprometem a defender ante a agressão;
c) ajuda de um dos signatários do pacto a qualquer Estado europeu (mesmo os não garantidos) que solicite essa ajuda para luta contra a violação de sua neutralidade.

2. No caso de se iniciarem operações militares conjuntas, em virtude da aplicação do pacto, os três países signatários se comprometem a firmar o armistício ou a paz de comum acordo.

Diante de uma proposta tão clara, só restou aos governos ocidentais tergiversar e tentar protelar qualquer acordo, esperando que Hitler, finalmente, se decidisse continuar sua marchar para o Leste até a URSS. O anticomunismo atávico não os permitia ver que, naquele momento, a principal contradição era entre o imperialismo anglo-francês e o alemão e não entre este e a URSS. A política externa francesa e inglesa cavava a própria cova.

A situação européia exigia atitudes rápidas e enérgicas, como propunha a URSS. Isso era tudo o que não queria Chamberlein. Um exemplo da má vontade inglesa foi a decisão da enviar sua delegação para negociar um tratado com os russo a bordo de um navio comum. Alegou-se que as bagagens não caberiam num avião. “Gastaram cinco dias na travessia, em um momento histórico em que eram extremamente importantes as horas e, inclusive, os minutos”, afirmou Maiski. Pior: a delegação enviada, composta por membros do segundo escalão do governo, não tinha autorização para assinar nenhum acordo político ou militar com os soviéticos. A missão inglesa foi uma grande farsa, visando protelar as negociações.

Em 10 de março de 1939 Stalin pronunciou um duro discurso no plenário do 18º Congresso do PCUS: “Os aliados ocidentais empurram os alemães para o leste, fazendo-lhes ver que os bolcheviques são presas fáceis (...). Não deixaremos o nosso país ser arrastado nesse gênero de conflito por incendiários cujo hábito consiste em fazer com que outros tirem da brasa as castanhas que eles próprios irão comer (...). A política não-intervencionista significa a convivência e o encorajamento à agressão (...). As potências democráticas abandonaram a Áustria, apesar da obrigação de defender-lhe a independência. Deixaram ao desamparo os sudetos e atiraram a Tchecoslováquia à feras (...) e continuam a incentivar os alemães a prosseguir em seus avanços cada vez mais para o Leste, como se quisessem dizer: ‘comecem vocês uma guerra contra os bolcheviques e tudo estará bem”.

A guerra batia as portas da Europa e a situação começou a ficar complicada para o governo da URSS. Ele sentia que estava sendo enrolado. Foi aí que surgiu da parte alemã a proposta concreta de um pacto de não-agressão. Não se tratava de um pacto militar de ajuda mútua, como os soviéticos haviam proposto aos ingleses e franceses.

O acordo foi assinado em 23 de agosto de 1939. Ele dava um tempo maior a URSS para que ela se preparasse econômica e militarmente tendo em vista o conflito que, mais cedo ou mais tarde, iria atingi-la. Stalin não tinha nenhuma ilusão quanto à longevidade dos acordos com Hitler, mas, prudentemente, queria garanti-lo por um maior tempo possível.

No dia primeiro de setembro, a Alemanha invadiu a Polônia e teve início a 2ª Grande Guerra Mundial. O velho político conservador inglês, Winston Churchill escreveu: “Não há dúvida (...) de que a Grã-Bretanha e a França deveriam ter aceitado a proposta russa (...). A aliança da Inglaterra, França e Rússia, em 1939, teria despertado o mais profundo alarma no coração da Alemanha (...). Hitler não ousaria atirar-se numa guerra em duas frentes (...) Se, por exemplo, Mister Chamberlain, tivesse dito, ao receber a proposta russa: ‘sim, unamo-nos os três e torçamos o pescoço de Hitler” (...) a história poderia ter tido um curso diferente”.

Os erros de Stalin e da Internacional Comunista

Duas grandes críticas ainda são feitas ao acordo. A primeira delas é quanto à cláusula secreta que previa a divisão da Polônia. Poucos dias depois da invasão alemã à parte ocidental daquele país, em 17 de setembro, o Exército Vermelho ocupou o lado oriental. Do ponto de vista geopolítico - e estritamente militar – o ato russo tinha sua razão de ser.

As regiões ocupadas foram a Ucrânia e a Bielo-Rússia ocidentais, que haviam sido arrebatadas da jovem Rússia soviética e entregues à Polônia após a Primeira Guerra Mundial. Por outro lado, a ocupação desses territórios manteria as tropas da Alemanha nazistas numa distância dezenas de quilômetros da fronteira soviética de 1939, melhorando as possibilidades de defesa militar do país num futuro conflito.

Outra crítica, esta coberta de razão, é que o “pacto de não-agressão” conduziu o movimento comunista internacional a arrefecer a luta antifascista entre 1939 e 1941. O imperialismo inglês e francês passou a ser considerado o único responsável pelo conflito europeu e mundial. Isso confundiu, desnorteou e isolou os comunistas em muitos países, facilitando a ação de seus inimigos. Na França, por exemplo, o PCF foi colocado na ilegalidade e taxado de traidor da nação.

O que era justo do ponto de vista da defesa do Estado e mesmo do socialismo soviético passou a ser algo incorreto e perigoso quando aplicado nos demais países do mundo. As políticas adotadas pelos partidos comunistas acabaram se subordinando, unilateralmente, aos interesses do Estado Soviético, que eram evitar qualquer movimento que desse pretexto para Hitler começar uma nova ofensiva para o Leste. Não seria a primeira nem a última vez que ocorreria essa subordinação. Os resultados foram sempre negativos para luta democrática, nacional e socialista dos trabalhadores.

Por Augusto Buonicore
Fonte: Portal Vermelho

23 março 2010

"Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo"

Por: Olga Benario Prestes



ÚLTIMA CARTA ESCRITA AO MARIDO E À FILHA, NO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE RAVENSBRÜCK, ANTES DE SER CONDUZIDA À MORTE EM CÂMARA DE GÁS





(ABRIL/1942)



Queridos:



Amanhã vou precisar de toda a minha força e de toda a minha vontade. Por isso, não posso pensar nas coisas que me torturam o coração, que são mais caras que a minha própria vida. E por isso me despeço de vocês agora. É totalmente impossível para mim imaginar, filha querida, que não voltarei a ver-te, que nunca mais voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos. Quisera poder pentear-te, fazer-te as tranças - ah, não, elas foram cortadas. Mas te fica melhor o cabelo solto, um pouco desalinhado. Antes de tudo, vou fazer-te forte. Deves andar de sandálias ou descalça, correr ao ar livre comigo. Sua avó, em princípio, não estará muito de acordo com isso, mas logo nos entenderemos muito bem. Deves respeitá-la e querê-la por toda a tua vida, como o teu pai e eu fazemos. Todas as manhãs faremos ginástica... Vês? Já volto a sonhar, como tantas noites, e esqueço que esta é a minha despedida. E agora, quando penso nisto de novo, a idéia de que nunca mais poderei estreitar teu corpinho cálido é para mim como a morte.

Carlos, querido, amado meu: terei que renunciar para sempre a tudo de bom que me destes? Corformar-me-ia, mesmo que não pudesse ter-te muito próximo, que teus olhos mais uma vez me olhassem. E queria ver teu sorriso. Quero-os a ambos, tanto, tanto. E estou tão agradecida à vida, por ela haver-me dado a ambos. Mas o que eu gostaria era de poder viver um dia feliz, os três juntos, como milhares de vezes imaginei. Será possível que nunca verei o quanto orgulhoso e feliz te sentes por nossa filha?



Querida Anita, meu querido marido, meu Garoto: choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça, pois parece que hoje as forças não consegu em alcançar-me para suportar algo tão terrível. É precisamente por isso que esforço-me para despedir-me de vocês agora, para não ter que fazê-lo nos últimas e difíceis horas. Depois desta noite, quero viver para este futuro tão breve que me resta. De ti aprendi, querido, o quanto significa a força de vontade, especialmente se emana de fontes como as nossas. Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão porque se envergonhar de mim. Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue. Mas, no entanto, podem ainda acontecer tantas coisas... Até o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver. Agora vou dormir para ser mais forte amanhã. Beijo-os pela última vez.



Olga



Fonte: Instituto Luiz Carlos Prestes (http://www.ilcp.org.br/)