Sobre os assassinatos a sangue frio na Noruega, um comentarista alemão, Herr Peter Ehrenberg, acha que somos idiotas ou analfabetos funcionais. Ou os dois. Ele diz em sua coluna "Meinung" (Opinião) no Morgen Post domingo passado:
"Quem foi agora em Oslo ou na ilha de Utoya? Al Kaida com ódio pelo mundo ocidental, extremistas de direita com ódio aos sociais democratas ou um doido varrido com ódio contra a vida e um ódio indescritível em mortos? Tanto faz!"
O senhor Peter Ehrenberg quer nos fazer crer que um massacre é um massacre e que tanto faz ter sido praticado por um fanático de direita, um fanático muçulmano ou o doidaço que acordou mal humorado. Pois mostremos ao senhor Ehrenberg que a coisa não é bem como ele tenta nos convencer.
Imaginemos o massacre tendo sido cometido por um fanático muçulmano. A Europa inteira e os EUA enviariam mais bombas, canhões e granadas para o Oriente para matar "os terroristas". 2 terroristas seriam mortos e 200 mil civis seriam massacrados. Agora vamos imaginar um louco varrido tendo massacrado os jovens noruegueses. O Louco seria levado para uma prisão psiquiátrica e ponto final.
Tendo sido o massacre perpetrado por um fanático de direita, os políticos europeus jurarão de pé juntos que os extremistas serão de agora em diante observados, novas leis serão aprovadas contra a direita e etc. E nada acontecerá e tudo será esquecido. Pelo menos até o próximo massacre.
Seguindo os passos da Tunísia e do Egito, o povo líbio se levanta contra o regime de seu país, exigindo a saída do atual líder Muammar Khadafi. Isso tem sido visto de diferentes pontos de vista em todo o mundo. Particularmente na América Latina há muita confusão sobre o que realmente está acontecendo. Acredito que seja necessário explicar a minha posição sobre esta matéria, porque alguns meios de comunicação têm abordado a questão como se o governo de Khadafi fosse um governo revolucionário e estivesse enfrentando uma rebelião orquestrada pelo imperialismo.
O caráter do regime de Khadafi
Longe de ser um governo anti-imperialista, Khadafi compactuou em várias ocasiões com o imperialismo mundial, reunindo-se e assinando acordos com Berlusconi, Sarkozy, Zapatero e Blair. Ele também recebeu visitas do rei espanhol Juan Carlos, representando os empresários da Espanha.
Em 1993-94, Khadafi introduziu as primeiras leis que faziam parte de um giro econômico no sentido da abertura do mercado. Durante uma década, quase nada foi feito nesse sentido. Mas, confrontado com as dificuldades econômicas em 2003, o processo se acelera. Em troca de leis que preparavam as privatizações e uma maior abertura ao investimento de capital estrangeiro, o regime iniciou uma reconciliação com o imperialismo e logo deu resultados.
Em setembro de 2003, a ONU suspendeu todas as sanções econômicas contra a Líbia, em troca de um pacote econômico que incluía planos para privatizar 360 empresas estatais e, em 2006, a Líbia inclusive solicitou a entrada na Organização Mundial do Comércio. Em 2008, a própria Condoleezza Rice (ex-Secretária de Estado dos EUA) disse que a Líbia e os Estados Unidos compartilhavam de interesses comuns, como “a luta contra o terrorismo, o comércio, proliferação nuclear, África, direitos humanos e democracia”.
Hoje, todas as grandes multinacionais do petróleo estão operando na Líbia: a British Petroleum, Exonn Mobil, Total, Repsol, entre outras. Por outro lado, é interessante notar que Khadafi se tornou dono de 5% das ações da Fiat, como resultado da abertura do país para os capitalistas italianos.
Tudo isso deixa claro que este regime está mais próximo dos interesses capitalistas e imperialistas do que dos interesses de seu próprio povo e da revolução. Como declarou o deputado do PSUV pelo estado de Bolívar, Adel El-Zabay, que é de origem árabe: “Khadafi já não é mais o líder anti-imperialista do passado e enfrenta com massacres um verdadeiro clamor popular”.
O caráter da revolta na Líbia
Essa revolta tem as mesmas causas que a da Tunísia e do Egito. O resultado da abertura de acordos de Khadafi com o imperialismo foi um desastre econômico para a maioria da população, apesar da riqueza petrolífera do país. A Líbia é um país com 30% de desemprego e um custo de vida cada vez mais elevado. Alimentos básicos, como arroz, farinha e açúcar encareceram cerca de 85% nos últimos 3 anos. Este é o motivo real que levou à revolta popular que existe na Líbia. Por esta razão Khadafi apoiou Ben Ali e Mubarak contra a insurreição revolucionária do povo da Tunísia e do Egito.
Inspirado por seus irmãos no resto do mundo árabe, trabalhadores, jovens e pobres na Líbia se levantaram contra uma ditadura que revela seu verdadeiro caráter. O levante que começou em Benghazi, a segunda maior cidade do país, tem se espalhado para muitas regiões do território nacional.
Khadafi respondeu com violência brutal, e assim como durante a revolta popular do “Caracazo”, usou o exército contra a população civil desarmada. Além disso, também tem utilizado mercenários contra o povo. O fato de que Khadafi foi forçado a pagar mercenários é a prova de que não confiava em seus próprios soldados. Em Benghazi, o exército passou para o lado do povo e isso tem se repetido em outras cidades. É difícil estimar o número de mortos, mas sabemos que só em Benghazi já foram mortas mais de 230 pessoas. A repressão atingiu um nível tão cruel que foi utilizada a força aérea para bombardear os manifestantes.
Sem dúvida, o imperialismo nessa situação vai tentar fazer valer os seus interesses. Sou contra qualquer intervenção imperialista na Líbia. São justamente os imperialistas que venderam armas a Khadafi, fizeram acordos de negócios para explorar a riqueza petrolífera do país e o utilizaram como uma barreira de contenção contra a “imigração clandestina” na Europa. O imperialismo não está interessado no destino do povo da Líbia, mas apenas nos recursos naturais do país.
O pretexto, alardeado pela mídia, é a defesa os direitos humanos e da democracia, mas a verdade é outra: o controle imperialista da região, de suas ricas minas de petróleo, bem como a contenção e desvirtuamento da onda revolucionária que agita o Oriente Médio e o Norte da África. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse na sexta-feira (11) que os Estados Unidos e seus aliados estão lentamente "apertando o laço" em torno do líder líbio Muammar Kadafi, e que uma zona de exclusão aérea continua sendo uma opção para pressioná-lo a deixar o poder. Liga Árabe Por sua vez, a Liga Árabe (LA), que havia tomado posição contra a intervenção estrangeira, pediu neste sábado que o Conselho de Segurança da ONU imponha uma zona de exclusão aérea na Líbia, segundo reportagem da televisão estatal egípcia, uma decisão que sinaliza um apoio da organização aos planos imperialistas esboçados por Obama. Os líderes árabes alegam que a zona de exclusão aérea não caracteriza intervenção, mas na realidade agiram sob forte pressão dos Estados Unidos e da União Europeia. O aval da LA para a proposta do chamado Ocidente é essencial para dar à intervenção uma aparência não imperialista. A zona de exclusão aérea é o primeiro passo de uma intervenção que tende a ser seguida pela ocupação imperialista do país e cujos desdobramentos são imprevisíveis. A televisão estatal também disse que a Liga Árabe decidiu abrir canais de comunicação com um conselho rebelde da Líbia, em Benghazi. A Liga afirmou que o conselho representa o povo líbio, segundo o canal. Fontes oficiais da Liga disseram que a entidade já estava em contato com os rebeldes sobre a situação na Líbia. Líbia vai resistir A Líbia anunciou na sexta-feira (11) a suspensão das relações diplomáticas com a França, primeiro país ocidental a reconhecer oficialmente o conselho rebelde que luta para tirar Muammar Kadafi do poder. O governo líbio também avisou que vai resistir com todas as armas a uma eventual invasão imperialista e responderá à altura se a zona de exclusão aérea for estabelecida. É muito pouco provável que os EUA obtenham o aval do Conselho de Segurança da ONU para a intervenção, onde Rússia e China que possuem direito a veto já anunciaram discordância com a proposta do império. A União Árabe também fez na sexta-feira uma enérgica declaração contrária a "qualquer intervenção militar estrangeira" na Líbia, e conclamou governo e rebeldes a deterem a beligerância e dialogar para conseguir um acordo. Mas nada disto parece suficiente para deter Washington, que procura envolver a Otan numa nova e perigosa aventura militar no Oriente Médio.
O alerta chega em boa hora, sobretudo para aqueles que não enxergam paralelo entre as revoltas árabes e a atual situação do nosso continente. Para além das ditaduras árabes – que parecem ter sido descobertas pelas corporações de mídia agora, depois de perseguir opositores políticos por 30 anos – há que se considerar os interesses econômicos que movem montanhas. Uma boa dica vem do chanceler cubano, Bruno Rodriguez, que criticou as ameaças de invasão à Líbia em pronunciamento foi feito nesta terça-feira (1º) durante a 16ª sessão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. “Cuba rechaça categoricamente qualquer tentativa de aproveitar a trágica situação criada para ocupar esse país e controlar seu petróleo”, afirmou.
Também temos que ir além da mudança da posição brasileira em relação às violações de Direitos Humanos no mundo. Sim, antes nós não condenávamos quem as potências queriam condenar só porque elas assim desejavam. Agora nós condenamos, mas deixamos claro que não ficaremos à mercê do jogo político internacional, e também condenaremos as violações para as quais elas, as potências, fecham os olhos – como Guantánamo e Abu Ghraib.
Enxergar os interesses econômicos por trás das transformações no mundo árabe é fundamental para preservar a soberania dos povos latino-americanos. Se nossos povos acreditarem na auto-proclamada boa vontade e defesa dos Direitos Humanos desinteressada das grandes potências, a qualquer momento elas podem construir uma imagem negativa de determinado governo só para destituí-lo. Já fizeram isso outras vezes, basta consultar a História.
A questão se torna ainda mais central se considerarmos que o Petróleo, matriz das sociedades modernas, é um recurso finito e cada vez mais raro. Sendo que alguns países que tem mais têm descoberto o óleo nos últimos anos estão em Nuestra América, como Brasil e Venezuela.
Portanto, é necessário que os governos interessados na soberania dos povos latino-americanos invistam na defesa comum do continente. Além das armas tradicionais e da união entre os países da região, é fundamental o fomento às iniciativas de comunicação democrática, tendo em vista que muitas vezes os interesses das corporações de mídia coincidem com os das potências estrangeiras. Como já dizia José Martí, um dos libertadores da América, “um povo culto é um povo livre”.
Por duas fortes razões o Oriente Médio tornou-se um pilar da política externa do império norteamericano: a necessidade estratégica do abastecimento de petróleo seguro e barato para os EUA, a Europa e o Japão, e a proteção a Israel – aliado fundamental dos EUA na região, cercado por países árabes.
por Emir Sader
Por isso o surgimento do nacionalismo árabe tornou-se um dos fantasmas mais assustadores para os EUA no mundo. Por um lado, pela nacionalização do petróleo pelos governos nacionalistas, afetando diretamente os interesses das gigantes do petróleo – norteamericanas ou europeias –, pela ideologia nacionalista e antimperialista que propagam – de que o egípcio Gamal Abder Nasser foi o principal expoente – e pela reivindicação da questão palestina.
A história contemporânea do Médio Oriente tem assim na guerra árabe-israelense de 1967 sua referência mais importante. A união dos governos árabes permitiu a retomada da reivindicação do direito ao Estado Palestino, que foi respondida por Israel com a invasão de novos territórios – inclusive do Egito -, com o apoio militar direto dos EUA.
Novo conflito se deu em 1973, agora acompanhado da política da OPEP de elevação dos preços do petróleo. A partir daquele momento ou o Ocidente buscava superar sua dependência do petróleo ou trataria de dividir o mundo árabe. Triunfou esta segunda possibilidade, com a guerra Iraque-Irã, incentivada e armada pelos EUA, que golpeou dois países com governos nacionalistas, que se neutralizaram mutuamente, em um enfrentamento sangrento. Como subproduto da guerra, o Iraque se sentiu autorizado a invadir o Kuwait – com anuência tácita dos EUA -, o que foi tomado como pretexto para a invasão do Iraque e o assentamento definitivo de tropas norte-americanas no centro mesmo da região mais rica em petróleo no mundo.
Os EUA conseguiram dividir o mundo árabe tendo, por um lado os regimes mais reacionários – encabeçados pelas monarquias, a começar pela Arabia Saudita, detentora da maior reserva de petróleo do mundo, e por outro governos moderados, como o Egito e a Jordânia. A maior conquista norteamericana foi a cooptação de Anuar el Sadar, o sucessor de Nasser, que supreendentemente normalizou relações com Israel – o primeiro regime da região a fazê-lo -, abrindo caminho para a criação de um bloco moderado, pró-norteamericano na região, que se caracteriza pela retomada de relações com Israel – portanto o reconhecimento do Estado de Israel – e praticamente o abandono da questão palestina. Passaram a atuar também dento da OPEP, como força moderadora, favorável aos interesses das potências ocidentais.
O Egito, como país de maior população da região, com grande produção de petróleo e país daquele que havia sido o maior líder nacionalista de toda a região – Nasser – passou a ser o peão fundamental no plano político dos EUA na região. Não por acaso o Egito tornou-se o segundo país em auxilio militar dos EUA no mundo, depois de Israel e à frente da Colômbia.
Essa neutralização do mundo árabe, pela cooptação de governos e pela presença militar dos EUA no coração da região – atualizada com a invasão do Iraque – constituiu-se em elemento essencial da politica norteamericana no mundo e da garantia de abastecimento de petróleo para complementar a declinante produção dos EUA e todo o petróleo para abastecer a Europa e o Japão.
É isso que está em jogo agora, depois da queda das ditaduras na Tunísia e no Egito. Impotente para agir de forma direta no plano militar, os EUA tentam articular transições que mudem a forma de dominação, mas mantenham sua essência. O Exército preferiu a renúncia de Mubarak, porque se deu conta que sua presença unia a oposição. Tem esperança que, sem ele, possa cooptar setores opositores para uma coalização moderada – com El Baradei, a Irmandade Mulçumana, com o apoio dos EUA e da Europa – que possa fazer reformas constitucionais, mas controlar o processo sucessório nas eleições de setembro, conseguindo desmobilizar o movimento popular antes que este consigar forjar novas lideranças.
Indepentemente de que possa se estender a outros países da região – de que a Argélia, a Jordânia, o Marrocos, a Arábia Saudita, são candidatos fortes – a queda das ditaduras na Tunísia e no Egito demonstra que os EUA já não poderão manter o esquema de poder montado há mais de três décadas. O menos que se pode esperar é a instabilidade política na região, até que outras coalizões de poder possam se organizar, cujo caráter dará a tônica do novo período em que entra o Oriente Médio.
ISLAMABAD. Os 30 anos de governo do agora derrubado presidente Hosni Mubarak acabaram numa declaração de 56 palavras lida na 6ª-feira pelo porta-voz e ex-chefe da polícia secreta de Mubarak Omar Sulieman. O fim de Mubarak dá nova vida à antes adormecida Fraternidade Muçulmana, mas não implica mudança no regime. A ditadura permanece viva, como, antes, já acontecera na Tunísia.
Suleiman leu a seguinte declaração: “Em nome de Deus, o misericordioso, o compassivo. Cidadãos. Nessas circunstâncias muito difíceis pelas quais passa o Egito, o presidente Hosni Mubarak decidiu deixar o cargo de presidente da República e encarregou o Alto Conselho das Forças Armadas de administrar os negócios do país. Que Deus ajude todos.”
Essa declaração é indicação de que os militares lideram o golpe vitorioso, comandado pelo ministro da Defesa marechal-de-campo Mohammed Hussein Tantawi, depois de mais de duas semanas de protestos de rua.
O fim da ditadura de Mubarak, 83 anos, quebrou a paralisia da inteligência coletiva no mundo muçulmano e há nova percepção de que a mobilização de massas é poder decisivo. Mesmo assim, na ausência de movimentos verdadeiramente democráticos, o mais provável é que o Oriente Médio venha a se converter em novo campo de batalha entre o Irã xiita e a Fraternidade Muçulmana predominantemente sunita.
O Irã entende que se vive um estágio de transição no Egito, e que a mudança de todos os paradigmas – como a Revolução Islâmica no Irã em 1979 que derrubou o Xá – é ainda sonho distante; mas que, já nesse estágio inicial, começa a ser diluído o controle que exercem na Região regimes predominantemente sunitas, como na Arábia Saudita, no Egito, na Jordânia e na Tunísia.
Esse quadro agravará ainda mais o confronto na rua árabe, e pode auxiliar o crescimento do Islã xiita no Oriente Médio – o que criará profundidade estratégica para o Irã e pode levar a um renascimento do califado fatimida, que existiu, com centro na Tunísia e no Egito, de 909 a 1171.
Quando era já iminente queda do regime de Mubarak e a mobilização política na rua árabe não dava sinais de que arrefeceria, pela primeira vez em sete meses o próprio Supremo Líder do Irã, aiatolá Ali Khamenei, fez o sermão da 6ª-feira em Teerã, dia 4 de fevereiro.
“No momento da Revolução Islâmica da grande nação iraniana [em 1979], falava-se precisamente do que hoje se ouve, sobre um despertar islâmico. É o que hoje está aí” – disse ele.
“Nossa revolução serviu como inspiração e modelo pela perseverança, estabilidade e insistência nos princípios” – disse Khamenei.
“Hoje no Egito ouve-se o eco de nossa voz. O presidente que estava no poder nos EUA [Jimmy Carter] durante a revolução [iraniana] disse, em entrevista, que o que se ouve no Egito é familiar. O que se ouve hoje no Egito ouvia-se em Teerã naqueles dias” – disse Khamenei. Disse também que os desenvolvimentos no norte da África são resultado de “um despertar islâmico que se viu cada vez mais evidente depois da grande revolução islâmica da nação iraniana”.
Kamal al-Halbavi, líder da Fraternidade Muçulmana, saudou as palavras de Khomenei, em entrevista à BBC em Teerã [em persa]. Disse que queria que seu país se desenvolvesse em todos os campos, como o Irã, que alcançasse sucessos nos campos tecnológico e científico e que se convertesse em potência regional.
Jim Lobe, do Inter Press Service escreve:
“Considerada pela maioria a mais bem organizada e mais disciplinada agremiação política existente no Egito, a Fraternidade Muçulmana, cuja popularidade explica-se pela ampla rede que mantém de serviços médicos e assistência social para as populações mais pobres, além da longa história de oposição ao e perseguição pelo regime de Mubarak, parece contar com a lealdade de cerca de 30% da população.
Nas eleições parlamentares de 2005, candidatos associados à Fraternidade Muçulmana – o partido não concorre oficialmente a eleições, desde que foi banido em 1954 – conquistou 20% dos assentos no Parlamento egípcio. Nas eleições de novembro último receberam pouquíssimos votos, em eleições que, segundo observadores locais e internacionais, foram acintosamente manipuladas a favor do Partido Nacional Democrático de Mubarak no poder e cujo futuro é hoje considerado incerto.”[1]
A Fraternidade Muçulmana e sua ideologia têm raízes profundas na luta dos islâmicos predominantemente xiitas do Irã entre meados dos anos 1960s até os anos 1970s, refletida nos escritos do Dr. Ali Shariati[2], ideólogo da Revolução Islâmica do Irã, que citava frequentemente Syed Qutb, da Fraternidade Muçulmana do Egito.
Depois da Revolução Islâmica, o Irã converteu-se em força por trás de todos os movimentos islamistas[3] no mundo. Khalid Islambouli, oficial do exército egípcio que matou o presidente Anwar Sadat no atentado de 1981, era ligado à Jihad Islâmica do representante da Al-Qaeda Dr. Ayman al-Zahawari. O governo do Irã, em resposta ao tratado de paz que Sadat assinou com Israel e ao asilo que o Egito ofereceu ao Xá deposto do Irã, rompeu relações diplomáticas com o Egito. Em Teerã, há uma rua com o nome de Islambouli. Depois da execução de Islambouli, o Líder Supremo do Irã declarou-o mártir. E o Irã ofereceu asilo a membros da família de Islambouli.
Entre os anos 1980s e 1990s, o pior período da perseguição que o governo egípcio sempre moveu contra a Fraternidade Muçulmana, o Irã converteu-se em segundo lar de muitos líderes da Fraternidade Muçulmana. Depois dos ataques aos EUA em 11/9/2001, o Irã ofereceu santuário aos principais líderes da al-Qaeda. (Ver “How Iran and al-Qaeda made a deal”, Asia Times Online, 30/4/2010, e “Broadside fired at al-Qaeda leaders” Asia Times Online, 10/12/2010).
O Irã continuou como principal força de apoio das duas principais organizações da Fraternidade Muçulmana na Palestina – o Hamás e a Jihad Islâmica.
Para os movimentos islâmicos, o apoio que recebem da revolução iraniana e o apoio que o Irã dá a organizações predominantemente sunitas-salafitas explica-se como uma espécie de “dever histórico”.
A Fraternidade Muçulmana apoiada pela Arábia Saudita apoiou a revolução no Irã, numa aposta para por fim à dinastia xiita do Xá, que se misturara profundamente com um viés paroquial contra árabes e turcos e à continuação do império safavida cujos ancestrais converteram-se ao Islã xiita em 1501 para criar um pretexto para não aceitarem os turcos otomanos como parte do califado. Ideólogo da revolução do Irã, o Dr. Ali Shariati chamaria depois o xiismo do Xá e dos safavidas de “Xiismo Negro”, que teria vícios anti-islâmicos e traços anti-islamistas.
A Fraternidade Muçulmana investiria suas esperanças no “Xiismo Vermelho” de Shariati, que tem raízes no Corão, na vida do Profeta Maomé e na vida de descendentes do Profeta Maomé (Bani Fatima). Assim se pôde manter que a Revolução Islâmica do Irã seria aliada de todas as nações árabes. Mas foi aliança estratégica, que interessava aos dois lados, aos xiitas e aos sunitas, para benefício de ambos. Os xiitas também visavam a ampliar seu papel no mundo muçulmano.
O recente apoio do Irã aos islâmicos de todo o Oriente Médio é também movimento estratégico, na medida em que grupos sunitas não têm condições de promover qualquer revolução islâmica, embora possam, sem dúvida, contribuir para o caos político. O presidente do Iêmen Ali Abdallah Saleh e o rei Abdullah da Jordânia têm enfrentado movimentos de desestabilização nas últimas semanas, mas nem depois da derrubada de Mubarak há nesses países grupos políticos com força suficiente para catalisar qualquer mudança significativa.
De um modo ou de outro, o ambiente politicamente carregado do Oriente Médio pode gerar algum efeito dominó no Iraque, Bahrain, Kuwait e Arábia Saudita.
A inesperada aparição do Líder Supremo do Irã depois de longo afastamento das manifestações públicas e sua conclamação para um despertar islâmico no Oriente Médio não recebeu qualquer apoio material dos sunitas do mundo árabe, mas não há dúvidas de que o Irã financiará algum “despertar islâmico” nos círculos xiitas do Iraque, Iêmen, Bahrain, Kuwait e Arábia Saudita, como já fez quando a Arábia Saudita e o Iêmen uniram-se para reprimir as revoltas xiitas apoiadas pelo Irã em 2009. O Bahrain sempre dependeu dos Guardas Nacionais Sauditas para controlar qualquer agitação apoiada pelos xiitas iranianos.
Ideologicamente, o Islã sunita e o Islã xiita sempre foram rivais políticos, desde o começo. Historicamente, só houve uma aliança entre as duas ideologias, quando Bani Fatima (os descendentes do Profeta Maomé) e Bani Abbas (os descendentes do tio do Profeta Maomé) uniram-se para derrubar a dinastia Umayyad e pôr no poder a dinastia Abbasid em 750 dC. E essa aliança durou apenas os quatro anos do reinado de al-Saffah Abbasi.
Shariati cunhou a expressão Willayat-e-Faqih (guardiões da jurisprudência islâmica até a reemergência de al-Mahdi), reviveu leis islâmicas na religião xiita e criou espaço para uma revolução islâmica. A doutrina novamente apostava numa aliança entre Islã sunita e Islã xiita – dessa vez, com o Irã xiita no comando de uma revolução e os islâmicos sunitas como aderentes. Mesmo assim, sempre foi aliança incômoda, apesar de o Irã garantir proteção aos líderes da Fraternidade Muçulmana e à al-Qaeda e apoiar a resistência islâmica palestina.
Com a al-Qaeda construindo um teatro de guerra do Afeganistão à Ásia Central e do Iraque à Somália, e com a Fraternidade Muçulmana liderando um levante no Oriente Médio e no Norte da África, ambos, o Islã sunita e o Islã xiita entram em fase nova e decisiva da luta.
Seja como for, os conceitos de Imamat (liderança xiita) e de Califado (liderança sunita) inevitavelmente baterão de frente, e nenhum tipo de coexistência será possível.
Se houver insurgências de xiitas no Oriente Médio, para as quais o Líder Supremo do Irã repentinamente apresentou-se como líder e campeão, haverá confrontos mortais entre esses dois principais segmentos do mundo muçulmano.
NOTAS
[1] Jim Lobe, “The Brotherhood Bogeyman”, 12/2/2011, [em tradução]. [2] 1933-1977. Mais, sobre ele, aqui [3] A palavra “islamista” não aparece ainda nos dicionários brasileiros, mas já é usada em todo o mundo, em várias línguas, sempre que é preciso demarcar a diferença que há entre “apoiar movimentos políticos inspirados na religião islâmica” e “praticar ou seguir ou pregar a própria religião islâmica”. Em inglês, diz-se “islamist”, no primeiro caso; e “islamic”, no segundo. Em francês, diz-se “islamiste” e “islamique”, na mesma oposição. O fato de a palavra “islamista” não estar ainda dicionarizada em português do Brasil não tem importância alguma para nenhum efeito de ‘correção’ ou de revisão; a palavra deve ser mantida quando for usada nas nossas traduções, mesmo sem estar ‘oficializada’ nos dicionários. Edição nova que se faça dos dicionários de língua portuguesa do Brasil, das duas uma: ou incluirá a nova palavra, ou repetirá os erros de repetição conservadora dos dicionaristas e gramáticos conservadores autoritários [NTs].
A hegemonia do capitalismo no mundo se assentou na industrialização, que promoveu sua superioridade econômica, com todos os seus outros desdobramentos – tecnológicos, culturais, políticos. Esse processo se apoiou centralmente no petróleo como fonte energética, sem que a Europa ocidental – seu núcleo original – pudesse contar com petróleo.
A hegemonia norteamericana consolidou o estilo de consumo da civilização do automóvel – a mercadoria por excelente do capitalismo norteamericano -, que acentuou o papel do consumo de petróleo. Embora os EUA tivessem petróleo, seu gasto excessivo fez com que suas fontes se aproximassem cada vez mais do esgotamento, além de que o montante que sempre precisaram os fez se somarem aos países que dependem da importação do petróleo.
Estava assim inscrito no estilo de vida ocidental, a dominação dos países árabes, para dispor de petróleo a preços baratos. Esse esquema encontrou seu primeiro grande obstáculo com o surgimento de regimes nacionalistas, em países fundamentais na região, como o Egito e o Irã. Os problemas convergiram na crise de 1973, em que se uniram o aumento do preço do petróleo com a reivindicação do Estado palestino e a oposição ds governos árabes unidos a Israel.
Diante da crise, os EUA passaram a operar em duas direções: intensificar os conflitos que dividissem o mundo árabe – como a guerra Iraque-Irã – e buscar formas de conseguir a presença permanente de tropas norte-americanas na região – obtida a partir da primeira guerra do Iraque.
O enfraquecimento dos governos árabes e da sua unidade interna foi acompanhada da cooptação do governo do Egito – depois da morte de Nasser, primeiro com Sadat (o primeiro a normalizar relações com Israel) e depois com Mubarak, o que fez desse pais o aliado fundamental dos EUA no mundo árabe, recebendo a segunda maior ajuda militar de Washington no mundo, logo atrás de Israel.
A diversificação das fontes de energia – com a importação de gás da Rússia – alivia um pouco a demanda de petróleo, mas incorpora a dependência de um país que tampouco aparece como confiável para a Europa. Mais seguro é o controle politico e militar da região pelos EUA, como garantia para a Europa. Os países europeus não participaram das guerras do Iraque – com exceção da Inglaterra -, mas as financiaram, pelos serviços que os EUA lhes prestam.
A eventual perda do Egito como eixo do controle politico da região seria gravíssimos para os EUA – além da queda do ditadora aliado na Tunísia e outros desdobramentos em países com governos similares na região. Além de que poderia contribuir decisivamente para romper o isolamento de Gaza, liberando a entrada via Egito, até aqui tão bloqueada como aquela controlada por Israel.
A impotência norteamericana diante das formas tradicionais de intervenção militar confirma a decadência da hegemonia dos EUA, nesse caso em uma região e em um país chaves para seu sistema de dominação. Está claro que Obama já abandonou a possibilidade de sobrevivência de Mubarak, concentrando-se agora numa transição que permita a cooptação de quem vier a sucedê-lo. É um tema aberto, que pelo menos revela que a alternativa aos regimes ditatoriais da região não reside obrigatoriamente em forças islâmicas – argumento utilizado na logica do mal menor de apoio a esses ditadores.
Em condições culturais renovadas, o nacionalismo árabe pode renascer, agora articulando uma nova unidade de governos progressistas, anti-EUA e pro palestinos na região – a pior das possibilidades para Washington -, mas plenamente possível, pela intervenção espetacular dos povos desses países.
Ataque a navio matou 19 e não 9; corpos foram jogados no mar
A ativista e cineasta brasileira Iara Lee, detida por tropas israelenses na ação militar contra embarcações que levavam ajuda humanitária à Gaza na segunda-feira passada, disse que passageiros do barco em que viajava "'viram soldados atirando corpos no mar". Israel sustenta que 9 pessoas morreram no ataque, mas Iara discorda. "Nossa contabilidade é de que 19 pessoas morreram. Ainda há gente desaparecida, não sabemos o que aconteceu com eles. E ainda há feridos muito graves, praticamente morrendo, que não conseguimos retirar do hospital em Tel Aviv."
Como tem ocorrido periodicamente, vivemos um ano relativamente atípico, principalmente por força de tratar-se de um ano de copa e de um ano eleitoral (com eleições gerais). Ano que propicia, mais do que de hábito, a cultura do “pão e circo” dos antigos romanos. Tememos, por conseguinte, que, nesses próximos quarenta e cinco dias, tudo se transforme num gigantesco e anestesiante “carnaval da copa”…
Situação favorável a que passem ao largo fatos gravíssimos que se produzem, no âmbito internacional e no próprio cenário nacional. O mais recente foi o covarde ataque perpetrado pelo exército de Israel contra embarcações em missão humanitária. Com a agravante de que o fato ocorrido em águas internacionais, a cerca de 60 Km de Israel. Embora grave, o fato constitui apenas a ponta de um enorme “iceberg” de terror e violência reiterados, com a cumplicidade de grandes potências, à frente os Estados Unidos.
Referimo-nos aqui, em especial, ao que anda se passando na Faixa de Gaza, terra dos Palestinos, brutalmente impedidos acintosamente pelo Estado de Israel de viverem em sua própria terra, com autonomia e liberdade. Não bastassem os territórios violentamente anexados e assim mantidos e ampliados por Israel, em sucessivas guerras, com o apoio ou a cumplicidade das grandes potências, a começar pelos Estados Unidos, agora nem no minúsculo território que lhes restou (uma área de pouco mais de 350 mil Km2, onde se acham confinados um milhão e meio de habitantes), os Palestinos podem respirar…
Vivem, ou mais precisamente sobrevivem, há três anos, a pão e água, num bloqueio desumano imposto por Israel a manu militari – afinal Israel tem-se mostrado, desde o início, um Estado belicoso, vivendo de guerra e para a guerra -, em flagrante desrespeito ao Direito Internacional. Situação que, em relação ao Povo Palestino, guardadas as proporções, lembra os campos de concentração nazistas, de que foram as principais vítimas os judeus, cujo Estado hoje reproduz contra os Palestinos aquilo de que ontem foi vítima o povo judeu…
Ações de reiterada violação aos Direitos Humanos mais elementares são praticadas pelo Estado de Israel. E o pior: de modo impune! Até parece que, num fórum como o da ONU, cada israelense vale por centenas ou milhares de cidadãos, numa escala cuja definição dependa da força e do prestígio de seu respectivo país.
Uma ideologia que, mais do que pensada e difundida, tem sido posta em prática reiteradamente pelos seus protagonistas e aliados. Os sionistas, apoiados em tal ideologia, tentam passar a presunção de que a vida de um cidadão israelense (ou norte-americano) vale muitas vezes mais do que a vida de centenas ou de milhares de cidadãos de outra parte do mundo.
O massacre mais recente – do qual resultaram nove mortes e cerca de quarenta pessoas feridas – pode servir para ilustrar um pouco tal situação. Israel – sempre protegido pelo privilégio do veto dos Estados Unidos, no Conselho de Segurança da ONU – sente-se blindado e imune a qualquer punição por parte da ONU, e, por isso mesmo, encorajado a reeditar seus massacres contra os Palestinos e seus vizinhos aliados, sem que nada lhes aconteça, além das pedras lançadas por suas vítimas de Gaza. Para tanto, tentam em vão passar a idéia de que lutam contra os “terroristas” do Hamas…
No episódio mais recente do ataque covarde à embarcação em missão humanitária, perpetrado em águas internacionais, Israel comete mais uma de suas investidas assassinas, desta vez contra embarcações em que viajavam pessoas de cerca de 60 países. Ataca, mata, fere, prende, arrasta para seu país, interroga, julga, ou seja, tripudia do Direito Internacional, na certeza da impunidade. Desta vez, houve protestos generalizados. Mas, a costumeira arrogância do Governo dos Estados Unidos, costumeiramente tão contundente contra os “terroristas do Eixo do mal” (Irã, Coréia do Norte…) agora se transforma em cautela e “prudência” em relação ao terrorismo praticado por seus aliados…
Imaginemos, por exemplo, a hipótese de o abominável e covarde ataque cometido pelo exército de Israel contra as embarcações com pessoas de cerca de 60 países (Brasil, inclusive), em missão evidentemente humanitária, tivesse sido cometido pelo exército de outro país (Irã, Cuba, Brasil, Venezuela, Coréia do Norte, Síria…), qual teria sido a reação imediata de governos como o dos Estados Unidos, dos países europeus e de sua respectiva mídia?
Importa, sim, que nos indignemos profundamente. Ser humano, não importa onde viva, ou qual sua condição, tem que ser tratado com justiça e com rspeito. E que de tal indignação profunda resultem gestos concretos, que acenem para o nosso compromisso de o nosso efetivo empenho na construção de um novo mundo.
Há no mundo uma monopolização crescente do pensamento. Os recentes avanços tecnológicos favorecem a concentração da informação em poucas mãos. Quando Francis Fukuyama lançou a inconsistente teoria do fim da história, o objetivo era semear a desesperança e consolidar a ideia de que não há futuro, e sim perenização do presente. O capitalismo é o melhor e definitivo sistema econômico; e a democracia, manipulada pelo poder financeiro, sua expressão política. Derrubado o muro de Berlim, a globalização consiste em impor ao planeta a pax americana e sepultar, assim, as ideologias progressistas e libertárias, extinguindo, da cultura, a consciência histórica, sem a qual não há como construir alternativas. Felizmente teorias não detêm o avanço histórico. A América Latina é, hoje, o melhor exemplo disso, com a sua primavera democrática e seus governos democrático-populares. Novos atores sociais e processos emancipatórios despontam. Redes planetárias de busca de “outro mundo possível” aparecem. Esses sinais de esperança reforçam a necessidade de se aprofundar o pensamento crítico, alternativo, e promover a descrença nos dogmas consagradores da desigualdade e da exclusão social e da apropriação privada da riqueza. Para o pensamento hegemônico, os novos inimigos são o “terrorismo” (leia-se: tudo que se opõe a ele), o narcotráfico, os países que formam o “eixo do mal”, e todos que criticam o sistema de dominação múltipla do capitalismo transnacional e neoliberal. O polo hegemônico desse pensamento único são os EUA, respaldados pelo consenso da União Europeia e do Japão. E sobretudo as empresas transnacionais. Em nome da defesa da democracia (entenda-se: do modelo fundado na desigualdade e na exclusão), procura-se evitar a proliferação de armas atômicas ou de destruição em massa… exceto nos países que, na ótica de Washington, integram o “eixo do bem”. Quem melhor expressou a nova doutrina político-militar foi Zbigniew Brzezinski, em 1998, quando denunciou que o imperativo dessa estratégia geopolítica consiste em manter os vassalos dependentes no que diz respeito à segurança, e evitar que os “bárbaros” se articule m, como agora ocorre na América Latina e no Caribe, com a proposta de fundação, no próximo ano, de um organismo semelhante à União Europeia, capaz de congregar os países do continente sem a presença e ingerência dos EUA e do Canadá. Hoje, o que preocupa a CIA e o Pentágono não é a confrontação leste-oeste, e sim a norte-sul entre os países ricos e pobres. Há um processo sistemático de pasteurização da cultura, travestida de entretenimento centrado no consumismo, de hegemonização do pensamento, por meio da disseminação midiática de paradigmas comuns e do consumo padronizado, de modo a negar o pluriculturalismo, o direito à autonomia dos povos originários, a diversidade religiosa, os movimentos sociais emancipatórios, a cultura como processo crítico de leitura e transformação da realidade. Como diria Paulo Freire, cada vez mais a cabeça dos oprimidos pensa e enxerga pelo ponto de vista dos opressores.
A Cúpula Eurolatino-americana de Microempresas e Economia Social, realizada de 3 a 6 de maio em Cáceres, na Espanha, aprovou uma moção de repúdio às declarações do candidato tucano à Presidência do Brasil, José Serra, caracterizando o Mercosul como uma “farsa” e defendendo a sua “flexibilização”.
A nota defende o bloco como o “mais importante acordo econômico e cultural da América Latina”. Além disso, adverte para os riscos de, no atual quadro de crise internacional e com um enfraquecimento da integração, as grandes corporações ampliarem seu poder em detrimento das empresas latino-americanas.
O encontro de Cáceres aprovou também a criação da Eurolatim — Associação Eurolatinoamericana de Micros, Pequenas e Médias Empresas. O objetivo da iniciativa é buscar uma maior integração social e econômico entre os povos da Europa e da América Latina.
Leia abaixo a íntegra da nota aprovada na reunião de cúpula:
Nota de Repúdio
Os empresários latinoamericanos reunidos em Cárceres, Espanha entre os dias 03 e 06 de Maio para a “Cumbre Eurolatinoamericana de Microempresas y Economia Social” que resultou na Fundação da Eurolatim 98% – Associação Eurolatinoamericana de Micros, Pequenas e Médias Empresas que tem como objetivo principal buscar uma integração social e econômica entre os povos alicerçadas nos princípios da sustentabilidade, repudiam fortemente as manifestações do candidato a Presidência da República do Brasil, Sr. José Serra, que propõe substituir o Mercosul e as demais alianças regionais por tratados de livre comércio.
Considerando:
• O Mercosul é o mais importante acordo econômico e cultural da America Latina. • No atual momento de crise o Brasil sair do Mercosul é abrir espaço para que as grandes corporações internacionais ampliem seus interesses em detrimentos das empresas LatinoAmericana.
Esperamos que o candidato venha a público e esclareça sua posição que só interessa àqueles que sempre produziram pobreza e desigualdades em nosso continente.
Assinam esta nota:
Alampyme – Associalção Latino Americana de MIPYMEs
Alampyme – Capítulo México
Ampyme – Asemblea de Pequenã e Mediana Empresas de Argentina.
Anmype – Asociación Nacional De Micro Y Pequeñas Empresas de Uruguay
Camara de la Pequeña Industria del Guayas de Equador.
Confagan — Cofederación Nacional de Agricultores y Ganaderos de Venezuela.
Conupia – Confederación Nacional Unida de La Pequeña y Micro Empresas do Chile.
Febopi – Federación Boliviana de La Pequeña Industria
Fepami – Federación Paraguaya de Micro Empresários
Upta — Unión de Profesionales Trabajadores Autónomos de Espanha
Fundación para La Internacionalización do Soft Livre de Espanha
Serra propõe substituir o Mercosul e as demais alianças regionais por tratados de livre comércio. A retirada política do Brasil significaria um decisivo aumento da influência dos EUA na América Latina, abrindo o caminho para suas estratégias de desestabilização e conquista. No esquema Serra, sem a rede protetora de aproximações e acordos políticos, econômicos e culturais, o Brasil teria só um caminho em sua política comercial: o da competição selvagem apoiada por salários e impostos reduzidos, na miséria crescente do grosso de sua população, no apequenamento do Estado e na expansão das estruturas repressivas para manter a ordem social e política. A análise é de Jorge Beinstein.
As declarações hostis ao Mercosul feitas por José Serra diante de empresários da Federação de Indústrias de Minas Gerais (FIEMG), deveriam ser tomadas como um sinal de alarme não só no Brasil, mas também na maior parte dos países da região. Como assinalou recentemente um jornal de Buenos Aires, essa grosseria está em aberta contradição com o fato de que cerca de 90% das exportações do Brasil são compradas pelos países do Mercosul e de outros da América Latina (1). As declarações do candidato direitista aparecem como um convite ao suicídio do sistema industrial brasileiro que ficaria exposto à feroz concorrência na América Latina de países desesperados por aumentar suas vendas. A China, por exemplo, que acaba de registrar em março deste ano seu primeiro déficit comercial mensal do último qüinqüênio e cujas exportações (em sua quase totalidade industriais) caíram em 2009 cerca de 16% em comparação a 2008. Mas também de gigantes econômicos como Alemanha e outras economias européias de alto e médio desenvolvimento, ou dos Estados Unidos, todos eles acossados pela contração do comércio internacional provocada pela crise.
A proposta de Serra de revisar os acordos do Mercosul (considerado por ele como uma farsa e um obstáculo), apontando, como ele mesmo proclama, para sua “flexibilização”, reduzindo ao mínimo o processo de integração econômica, política e social até chegar mesmo a sua eliminação foi recebida com grande alegria pelos círculos mais reacionários da América latina e dos Estados Unidos. A publicação América Economia deu à notícia uma imagem de ruptura apocalíptica, destacando “José Serra reafirma que não quer que Brasil continue no Mercosul” (2).
Se Serra chega à presidência e aplica sua promessa de liquidação do Mercosul, estaria dando um terrível golpe contra uma das maiores proezas econômicas do Brasil: o boom de suas exportações que passaram de 58,2 bilhões de dólares em 2001 para 197,9 bilhões de dólares em 2008 (um aumento de 340%) (3). Como se sabe, as exportações brasileiras caíram cerca de 22% em 2009 devido à crise internacional, mas essa queda teria sido ainda maior sem a existência da retaguarda latinoamericana, sem esses países vizinhos ligados ao Brasil por múltiplos laços econômicos, políticos e culturais. Romper ou “flexibilizar” esses laços em um contexto internacional como o atual, marcado por uma crise que vai se agravando seria uma loucura. O Brasil estaria dando de presente uma importante porção dos mercados regionais a competidores de todos os continentes.
Integrações periféricas, deterioração das velhas potências centrais
A proposta de Serra vai na contramão da tendência global dominante rumo às integrações periféricas que aparecem como respostas às crescentes dificuldades das economias das potências centrais (EUA, União Européia e Japão). Neste início de 2010, a China firmou um acordo de integração comercial com os países do Sudeste Asiáico agrupados na ASEAN (4), envolvendo mercados onde vivem quase 1,9 bilhão de pessoas. Poucos meses antes, foi firmado um acordo similar entre a ASEAN e a Índia. Somados os dois acordos e as populações envolvidas (China, Índia e países da ASEAN) chegamos a cerca de 3 bilhões de pessoas, ou seja, cerca de 45% da população mundial. Esse processo está relacionado também com a integração entre China e Rússia, onde um dos baluartes é a Organização de Cooperação de Shangai que agrupa as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central e tem como observadores em processo de incorporação a Índia, o Paquistão, Mongólia e o Irã.
Este movimento de integração eurasiática incluindo mais da metade da população mundial está mudando não só a estrutura do comércio internacional, mas também suas relações políticas e militares, e é hoje o coração do processo de despolarização mundial, do fim da unipolaridade governada pelo Império norteamericano.
A outra tendência integradora importante é a da América Latina que, partindo do Mercosul, foi se ampliando por meio de diversas iniciativas, chegando a Unasul (390 milhões de habitantes e um Produto Bruto regional próximo a 3,9 trilhões de dólares) e à recentemente criada Comunidade de Estados Latinoamericanos e Caribenhos (CELC). O vínculo entre esses dois fenômenos regionais é o BRIC, convergência entre Brasil, Rússia, Índia e China, onde o Brasil é precisamente o elo que os articula estrategicamente.
Esta nova realidade vai muito mais além do nível comercial ou mesmo econômico e está expressa no surgimento de um imenso espaço de poder periférico cujos países líderes têm conseguido resistir muito melhor ao impacto da crise do que as grandes potências capitalistas. Enquanto os EUA vão chegando a um nível insustentável de dívida pública (próxima a 100% do Produto Interno Bruto) e a União Européia aparece muito golpeada pela crise grega, detonadora de um desastre regional muito maior, a América Latina vem se “desendividando”: em 2003, sua dívida externa pública representava cerca de 60% do Produto Bruto regional; em 2008, esse índice caiu para 30%. A região conseguiu isso crescendo e exportando, com várias de suas economias chave afastando-se da ortodoxia neoliberal e da hegemonia dos Estados Unidos.
Em resumo, a periferia está se integrando, suas nações comercializam cada vez mais entre si, enquanto os países ricos (a área imperialista do mundo)aparecem atingidos pela crise com seus mercados internos estagnados ou em contração. No entanto, a ascensão da periferia não é inexorável. Dependerá da forma pela qual responda a uma crise sistêmica global que se aprofunda, dependerá de sua capacidade de superar barreiras, das armadilhas de um sistema capitalista mundial regido por potências decadentes e hegemonizado pelo parasitismo financeiro e, sobretudo, no longo prazo, de sua capacidade para libertar-se dessa pesada teia de aranha civilizacional (de raiz ocidental e burguesa) que a condenou ao subdesenvolvimento.
As direitas locais
O que Serra propõe é um caminho perverso: sair do processo integrador periférico e submeter-se completamente às turbulências do mercado internacional sem nenhum tipo de escudo protetor regional ou periférico trans-regional. Deste modo, o Brasil passaria a fazer parte da estratégia de recomposição geopolítica imperial dos EUA, onde um dos capítulos decisivos é a desestruturação das integrações periféricas tanto na Eurásia quanto na América Latina.
Serra propõe substituir o Mercosul e as demais alianças periféricas (Unasul, BRIC, etc.) por um conjunto de tratados de livre comércio. A retirada política do Brasil significaria automaticamente um decisivo aumento da influência dos EUA na América Latina, abrindo o caminho para suas estratégias de desestabilização e conquista. O contexto regional de estabilidade obtido na década passada se deterioraria rapidamente. Um só caso exemplifica bem este perigo: a Bolívia esteve até bem pouco tempo correndo o risco de entrar em uma guerra civil, devido à convergência golpista de sua direita neofascista e do aparato de inteligência do governo Bush. O golpe cívico-militar que detonaria essa catástrofe foi, em boa medida, evitado pela intervenção política dos países do Mercosul, que deram um apoio decisivo para o governo constitucional de Evo Morales. A derrubada da democracia neste país seguramente teria animado tentativas similares em outras nações como Paraguai, Equador e mesmo Argentina convertendo uma parte importante do entorno geográfico do Brasil em uma área caótica, infestada de frentes reacionárias que finalmente conseguiriam afetar sua estabilidade democrática e sua dinâmica produtiva.
No esquema Serra, sem a rede protetora de aproximações e acordos políticos, econômicos e culturais, o Brasil teria só um caminho para prosseguir em seu desenvolvimento comercial em um mundo cada vez mais difícil: o da competição selvagem respaldada por salários e impostos reduzidos, ou seja, apoiada na miséria crescente do grosso de sua população (começando pelos assalariados e seguindo pelas classes médias), no apequenamento do Estado e, inevitavelmente, na expansão das estruturas repressivas destinadas a manter a ordem social e política; em resumo, na deterioração acelerada das liberdades democráticas. Como vemos, o processo começa com um discurso comercial e culmina necessariamente com um modelo político claramente autoritário.
Deste modo, Serra passa a formar parte do leque de políticos latinoamericanos de raiz neoliberal, nostálgicos das velhas relações neocoloniais com o Império. Estes dirigentes superados pelas tendências integradoras e autonomizantes hoje dominantes na periferia lançaram-se a uma reconquista desesperada dos governos. O tempo joga contra eles, a realidade vai lhes escapando, o senhor imperial que desejam servir está enredado em seus próprios e muito graves problemas, tornando-o cada vez mais irracional. Há um aumento da irracionalidade nos sistemas de poder do centro decadente do mundo e também em seus serventes periféricos.
As direitas loucas, degradadas, infestadas de brotos fascistas estão agora em moda na América Latina. Em certo sentido, expressam o passado (neoliberal), mas, sobretudo, constituem a promessa de um futuro sinistro.
Que outra coisa é a direita boliviana que deseja impor um regime de apartheid? Pensemos na caótica direita Argentina cujo único programa é o retorno aos planos de ajuste e a repressão dos movimentos sociais, na direita golpista paraguaia e seus delírios ditatoriais, na direita venezuelana que já ensaiou um golpe de estado fascista e inviável e que está disposta a repetir a façanha.
Seus projetos de ordem elitista e autoritário poderiam ser vistos como parte da decadência cultural dos círculos de poder que comandaram o mundo na era neoliberal, a era da hipertrofia do parasitismo financeiro, da depredação desenfreada de recursos naturais e humanos. Esses setores estão agora mergulhados em uma crise sistêmica que vai desorganizando-os, jogando-os em uma posição caótica, não só no nível de suas estruturas econômicas, mas também no plano psicológico, ou que os torna cada vez mais perigosos e imprevisíveis.
(*) Economista argentino, professor na Universidade de Buenos Aires. É autor, entre outros livros, de “Capitalismo senil, a grande crise da economia global”.
NOTAS
(1) “Jornal argentino questiona posição de Serra sobre Mercosul”, Carta Maior, 22/04/2010.
(2) “José Serra reafirma que no quiere que Brasil continúe en el Mercosur”, América Economía, 21/04/2010.
(3) IPEA, “Brasil em desenvolvimento”, Volume I, 2009.
(4) Membros da ASEAN; Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia, Brunei, Vietnã, Laos, Birmânia y Camboja
Lula encabeça lista da Revista Time como o líder mais influente do mundo.
Quando os brasileiros primeiro elegeram Luiz Inácio Lula da Silva presidente, em 2002, os barões do país [robber barons] checaram o tanque de combustível de seus jatos privados. Eles haviam tornado o Brasil um dos países mais desiguais da terra e então parecia ter chegado a hora da “vingança”. Lula, 64, era um filho genuíno da classe trabalhadora da América Latina — na verdade, um membro fundador do Partido dos Trabalhadores — que tinha sido preso por liderar uma greve.
Quando Lula finalmente conquistou a presidência, depois de três tentativas fracassadas, ele era uma figura familiar na vida nacional. Mas o que levou à política? Foi seu conhecimento pessoal do quanto é duro para muitos brasileiros trabalhar para sobreviver? Ser forçado a deixar a escola na quinta série para ajudar a família? Trabalhar como engraxate? Ter perdido um dedo em um acidente de trabalho?
Não, foi quando aos 25 anos de idade ele viu a esposa Maria morrer durante o oitavo mês de gravidez, junto com o filho, por não poderem pagar um tratamento médico decente.
Há uma lição aqui para os bilionários do mundo: deixem as pessoas terem bom atendimento médico e elas vão causar muito menos problemas para vocês.
E aqui há uma lição para o resto de nós: a grande ironia da presidência de Lula — ele foi eleito para um segundo mandato em 2006 e vai servir até o fim do ano — é de que quando ele tenta colocar o Brasil no Primeiro Mundo com programas sociais como o Fome Zero, desenhado para acabar com a fome, e com planos para melhorar a educação disponível para os trabalhadores do Brasil, faz os Estados Unidos parecerem cada vez mais um país do velho Terceiro Mundo.
O que Lula quer para o Brasil é o que um dia chamamos de Sonho Americano. Nós, nos Estados Unidos, onde o 1% no topo da escala tem mais riqueza financeira que os 95% da base combinados, estamos vivendo em uma sociedade que está ficando rapidamente cada vez mais parecida com a do Brasil. Qlique aqui e veja a lista completa.
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pressionou nesta terça-feira, 13, os líderes mundiais para que aprovem de maneira 'audaz e veloz' sanções contra o Irã por seu programa nuclear.